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Saúde do Homem: cultura ainda é a maior barreira à mudança de hábitos

Quase um terço dos homens brasileiros não vai ao médico regularmente. E um dado mais grave do que esse, obtido por meio de pesquisa feita por telefone, em 2015, com mais de seis mil homens, por meio da Ouvidoria do Sistema Único de Saúde (SUS), mostrou que 55% dos que não têm costume de ir ao médico, afirmam simplesmente não precisar. Uma das principais conseqüências disso, de acordo com o Ministério da Saúde, é que eles vivem, em média, sete anos menos que as mulheres. Para se ter uma ideia, um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feito em 2013, aponta que a expectativa de vida do homem é de 71 anos, enquanto a da mulher é de 78.

Esse foi um dos motivos que levou o Ministério da Saúde a desenvolver um programa especial voltado para a saúde do homem. No Pará, a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) implantou uma coordenação responsável por incentivar a prevenção entre o público masculino. E neste mês de agosto, o governo do Estado, juntamente com as Secretarias de Comunicação e de Saúde, lança uma campanha com o propósito de chamar a atenção da sociedade como um todo para a necessidade de mudar esse quadro. A abertura oficial da campanha será nesta terça-feira, dia 8 de agosto, às 18h, no Teatro Margarida Schivasappa. Nessa entrevista, o coordenador estadual de Saúde do Homem, da Sespa, Carlos Sales Júnior, explica como vem sendo feito esse trabalho e qual a importância dele para reverter o cenário atual. 

Há quanto tempo a Sespa atua no âmbito da Saúde do Homem?

Na verdade a Coordenação de Saúde do Homem foi criada em 2011, mas a política em si vem sendo executada desde 2009, apenas a Sespa aderiu dois anos depois. Desde então passamos a atuar mais diretamente nessa questão.

De que forma essa questão vem sendo trabalhada no Estado?

Levamos a política da saúde do homem para os municípios do Pará por meio das regionais de saúde. Inicialmente fazemos a qualificação dos profissionais que atuam nessas regionais e eles, por sua vez, atuam em seus municípios como agentes multiplicadores. Desde o ano passado, começamos a trabalhar o programa Pré-Natal do Parceiro, uma estratégia que, mesmo indiretamente, busca levar esse homem para dentro dos postos de saúde. O lançamento foi em novembro do ano passado e, a partir disso, temos investido na qualificação dos municípios, como já aconteceu com Parauapebas, Conceição do Araguaia, Ananindeua, Belém e Bragança, onde já vamos começar a trabalhar com o público masculino no 4ª Centro Regional de Saúde no Caeté. Mas ainda temos pela frente um grande desafio, porque no início essa política dispunha de um incentivo financeiro para que fosse executada. Hoje, isso já não existe mais. Então mais do que nunca precisamos sensibilizar os gestores para que eles possam efetivamente trabalhar essa política em seus municípios.  

Qual a maior dificuldade de chegar até esses homens?

A maior dificuldade é que eles não estão no serviço de saúde. Existe uma resistência muito grande por parte desse público. A nossa principal dificuldade atualmente é fazer esse homem acessar esse serviço para que possamos trabalhar com eles. Enfrentamos duas questões: a primeira é a cultural, já que é da natureza masculina um certo descaso com a saúde, e a segunda institucional, pelo fato de nem todas as unidades estarem preparadas para receber esse público. Trabalhamos muito a questão da política da saúde da mulher, da criança, do idoso, mas pouco se trabalhou o homem ao longo dessas décadas. Queremos e precisamos fazer esse resgate agora.   

Qual o perfil mais difícil de trabalhar quando se trata da saúde do homem?

É o homem com baixa escolaridade e machista, porque quando a gente fala em saúde acaba ressaltando a perspectiva relacional de gênero, do que é dito “de homem” e do que é dito “de mulher”. Muitas vezes essa questão do “cuidar” está sempre relacionada a uma questão feminina unicamente. Então, esse basicamente é o perfil mais difícil de trabalhar porque ele não consegue enxergar o “cuidar” como uma coisa também masculina.

Por que ainda há tanta resistência por parte dos homens em cuidar da saúde?

Em boa ou em sua maior parte, essa ainda é uma questão cultural. O homem em nossa sociedade até hoje é criado para ocupar o espaço público, para se expor a riscos. Já a mulher é talhada para o autocuidado, para cuidar do outro. Isso está enraizado na nossa cultura paternalista, que resume o papel do homem em prover, cuidar das contas, enquanto o da mulher é cuidar da casa, dos filhos. Esse cenário vem mudando bastante no nosso país, especialmente na região Sul, onde temos um número significativo de mulheres chefes de família. Mas na nossa região, onde ainda temos essa questão cultural muito forte, talvez essa situação demore um pouco mais para mudar. Em muitas cidades, especialmente aquelas do interior, ainda temos muito arraigada essa coisa do homem ser o provedor. Enquanto não conseguirmos mudar essa mentalidade, a gente não vai conseguir ter um homem voltado para cuidar de si também.

Exames como o de próstata, através do toque retal, ainda enfrentam muita resistência por parte dos homens?

Os homens de um modo geral têm uma resistência aos exames e o de próstata por via retal é um deles. Mesmo os que sabem da importância desse controle após certa idade ainda preferem fazer o exame de sangue, que sozinho não fecha um diagnóstico para um câncer, por exemplo. É preciso o exame de toque retal e, se necessária, também a biopsia. Reitero que isso é cultural, os homens não foram ‘educados’ para cuidar da saúde. Eles normalmente só procuram pelo médico quando já estão doentes, deixando de lado a questão da prevenção.

Dados do IBGE apontam que os homens estão vivendo cerca de sete anos a menos do que as mulheres. Quais as doenças que mais estão matando os homens?

De fato, os homens estão vivendo bem menos do que as mulheres, em média sete anos. E as principais doenças que mais tem vitimado esses homens são as cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio e o Acidente Vascular Cerebral (AVC). Acontece que na faixa da população com que costumamos trabalhar a política de saúde do homem, que vai dos 20 aos 59 anos, o que mais mata nem são tanto as doenças, mas, as chamadas causas externas: acidentes de trânsito, violência, agressão, etc. Especialmente na faixa que vai dos 20 aos 30 anos, temos uma mortalidade altíssima por causas externas. Ampliando ainda mais esse escopo, na faixa entre 20 e 59 anos, as causas externas continuam liderando as mortes, seguidas das doenças cardiovasculares. Mas se pegarmos todas as faixas etárias, ou seja, de 1 a 85 anos, predominam as doenças cardiovasculares seguidas das doenças infecto-parasitárias, infecciosas e o câncer. Aqui na nossa região, os principais tipos de CA que atingem os homens são o de pulmão, do trato digestivo e o de próstata, que está associado aos homens acima dos 60 anos.

Além das doenças, especificamente, o que mais também vem matando os homens?

Acidentes de trânsito, violência e afogamento. O homem morre mais do que a mulher quando a gente fala de violência, como agressão ou com uso de arma de fogo; de trânsito, seja como motorista, motociclista ou transeunte. Ou seja, em qualquer cenário que se coloque, o homem morre muito mais do que a mulher.

Que contribuição os familiares em geral podem dar para incentivar os homens a cuidarem mais da saúde?

A família é fundamental no processo de mudança de mentalidade desse homem. Tanto a criança como o adulto precisam ser sensibilizados e orientados a procurar os serviços de saúde. Alguns deles, que já tem uma certa formação, devem ser reforçados a procurar o serviço de saúde, para fazer consultas.

Por onde deve começar esse cuidado com a saúde por parte dos homens?

O cuidado com a saúde do homem deve começar na Unidade de Saúde Básica, porque muitas vezes observamos campanhas que incentivam o homem a procurar um urologista, mas esse profissional é de média e alta complexidade, por isso, fará uma avaliação muito mais específica, e como já foi mencionado anteriormente, o homem morre muito por conta das doenças cardiovasculares. Contudo, os cuidados e a prevenção para isso são exames simples, como verificar a glicemia, saber se existe risco de diabetes, verificar pressão arterial, mas isso pode e deve ser feito no posto de saúde, na atenção básica. A partir daí, caso haja algum tipo de alteração, deverá ser feito o encaminhamento para o especialista. Por isso, volto a frisar que o cuidado com a saúde do homem deve começar pela atenção básica, não necessariamente pelas consultas especializadas. Ou seja, o incentivo deve ser na direção de procurar um clínico, para que seja feita uma avaliação e depois, caso seja necessário, procurar uma consulta com especialista.

11. Nos últimos anos, os homens têm se permitido um pouco mais de vaidade. Isso de alguma forma chegou a ter um efeito positivo nessa questão do cuidado com a saúde, ou não há essa relação?

Não temos um estudo específico que relacione o cuidado com a aparência, com o cuidado com a saúde. Na verdade, o que conseguimos ver é que o homem que cuida em excesso da aparência, em alguns casos, costuma ter um resultado negativo quando o assunto é saúde. Um exemplo disso, são  os casos do uso de anabolizantes. Na busca por um corpo perfeito, bonito, muitos homens têm recorrido a esse tipo de recurso, ao uso de esteróides, que elevam e muito o risco de câncer de mama no homem. Mas como não temos um estudo específico sobre essa questão do metrossexual com o cuidado com a saúde, não temos como fazer essa relação.

12. Algumas doenças ainda carregam o estigma de serem femininas, uma delas é a depressão. Os homens estão sofrendo mais de depressão, seguindo o registro mundial da população? Ou ainda há poucos registros?

O homem sofre de depressão tanto quanto a mulher e, às vezes, muito mais, porque sobre ele recai uma pressão muito grande pelo fato de ser o provedor da casa, a cobrança pelo sucesso, pela autonomia. Em números, o homem se suicida ou tenta muito mais o suicídio que a mulher. Costumamos ver muito mais mulheres nos postos de saúde em busca de ajuda para esse problema, elas têm mais apoio social, familiar ou de uma amiga que consegue arrastá-la até esse serviço. Para o homem, isso já é mais difícil. Primeiro porque a tendência é esconder o problema, especialmente se for de depressão. Além disso, muitos não têm essa facilidade de falar de sentimentos, como a mulher tem, simplesmente porque não foram criados para isso. Embora esse cenário venha mudando um pouco nos últimos anos, é preciso reforçar, sempre, que o homem ainda se mata em número muito maior que a mulher  

13. Ao mesmo tempo em que os homens representam a parcela da população que menos costuma cuidar da saúde, especialmente sob o aspecto da prevenção, são eles também os responsáveis pelo maior número de atendimentos nas urgências e emergências. O que isso representa? Os homens só procuram ajuda médica em último caso?

Isso é um fato. A porta de entrada para o serviço médico de saúde deveria ser a atenção básica, partindo daí, se necessário, para o serviço mais complexo. Mas não é o que ocorre. Como não existe um trabalho de prevenção, a porta de entrada do homem no serviço de saúde acaba sendo o atendimento de urgência e emergência. Outra questão é que normalmente ele já chega em estado muito mais grave que as mulheres, por exemplo. Uma conseqüência disso para a área da saúde é o alto custo que representa cuidar da saúde do homem, nos modos como ele vinha sendo feito, porque se pensarmos que o medicamento usado para pressão alta é dado de graça pelo SUS e que o tratamento para cuidar de alguém que, por conta da pressão alta, chegou a um quadro de AVC e fatalmente vai precisar de um leito de UTI - que custa em média R$ 1.000 para SUS - percebemos o quanto se gasta mais com um paciente que deveria ter sido tratado na atenção básica, com a prevenção. É claro que não podemos jogar essa culpa apenas no homem, também precisamos trazê-lo para fazer seus exames básicos e preventivos, porque isso é muito menos custoso para o SUS. No caso dos acidentes de trânsito, podemos observar em hospitais, como o Metropolitano, que o número de pacientes do sexo masculino é muito maior, resultado de uma falta de prevenção em outro aspecto, no caso, o comportamento no trânsito.